Transcrição do episódio "264 – Como ser humano em um mundo cada vez mais automatizado?"
Olá, pessoal! Meu nome é Fabiano Goldacker. Sou Coach Executivo da Ponte ao Futuro.
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Como ser humano em um mundo cada vez mais automatizado?
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Estamos humanizando a tecnologia e robotizando as relações. Essa é uma reflexão que tem me acompanhado há algum tempo e sempre quando eu falo sobre esse assunto, sempre que eu cito essa frase, eu já aviso que ela não tem a intenção de revelar algo sombrio ou de me fazer parecer tão pessimista no que diz respeito à forma que o ser humano tem se relacionado com a tecnologia. Os mais fatalistas diriam até que o mundo está perdido e que o fim está próximo, mas eu penso que não é disso que se trata. A frase revela as minhas preocupações quando eu observo que começamos a dar nomes às tecnologias que a gente utiliza, mas esquecemos do nome das pessoas ou de falar com as pessoas que estão ao nosso lado.
Mas, inicialmente, eu quero destrinchar um pouco a frase que dá título a este episódio. Perceba que é uma pergunta, uma provocação para que a gente reflita sobre como ser humano neste mundo automatizado. A provocação não está na parte do mundo automatizado, mas sim no que devemos fazer para continuarmos sendo humanos diante de tanta tecnologia. Na frase, a palavra “ser” não é um substantivo, mas sim um verbo, uma ação. Assim, a reflexão proposta tem a ver como sermos e mantermos nossa humanidade em um mundo tão tecnológico. Pode parecer bobagem, mas os avanços sem precedentes que estamos passando traz um desafio muito grande para nós, que é o de preservamos nossa humanidade (e sanidade) diante de um mundo tão tecnológico.
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E quando eu digo que parece bobagem, não falo isso à toa. Pode parecer exagerado ou um tanto fatalista da minha parte, porque tem uma teoria que nos ensina que o ser humano é incapaz de perceber, a olho nu, as grandes transformações tecnológicas. Por isso essa reflexão pode ser alarmante. Mas eu também posso parecer um grande visionário ao falar sobre os perigos da tecnologia para o ser humano, porque, a meu ver, estamos chegando em um ponto perigoso, em que a tecnologia está sendo tratada de uma forma muito humanizada. Para esclarecer, quando eu digo que estamos humanizando a tecnologia, além de estarmos colocando nomes e tratando a tecnologia como algo humano, estamos delegando para a tecnologia papeis que deveriam ficar exclusivamente sob os nossos domínios e, assim, estamos dotando a tecnologia uma capacidade cada vez maior de nos substituir, o que, em breve, vai fazer com que o ser humano se torne obsoleto.
Este pensamento começou a ser desenvolvido há muito tempo pelo filósofo alemão Gunther Anders, que era conhecido por sua crítica radical à civilização tecnológica e pela filosofia da obsolescência humana. Ele argumentou que a humanidade se tornaria obsoleta por não conseguir imaginar os efeitos destrutivos de suas próprias invenções tecnológicas. E veja só: ele falou isso na época do pós-guerra, há cerca de 80 anos.
Apesar disso, não sou contrário à tecnologia. Aliás, já falei sobre isso algumas vezes aqui no Coachitório Online para enaltecer, inclusive, o fato de que é a tecnologia que permite que a gente esteja fazendo isso aqui, um podcast. A tecnologia é fundamental. Aliás, mais do que fundamental, ela é um produto natural da própria evolução do ser humano. Sabemos que um dos fenômenos fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade é a tecnologia. O problema está na falta de limites.
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Considerando o impacto econômico, social, político e ambiental da evolução tecnológica, há que se discutir seus limites. Não se trata de impor limites ao intelecto humano, mas de uma questão ética. A ética impõe limites de forma a harmonizar o convívio em sociedade, permitindo nossa evolução através de sucessivos estágios de equilíbrio. Acontece que a falta de limites é algo típico da nossa era. A tecnologia confundiu totalmente os limites entre trabalho e família e a vida profissional invadiu o território familiar.
Seria exagero sugerir que deveria haver uma regulamentação para o uso da tecnologia da mesma forma como há para porte de armas? Qualquer pessoa poderia ter acesso a um computador poderoso e avançado? Novamente, embora talvez pareça exagero da minha parte, penso que essa reflexão válida, pois, dependendo do poder da ferramenta e da intenção da pessoa, ela tem potencial de causar muito mais danos do que uma arma de fogo. Acredito que a “utilidade” dos avanços tecnológicos torna-se uma força cega se estiver desvinculada da reflexão ética, porque a tecnologia não pergunta se algo é bom ou justo, apenas se funciona. Não questiona impactos de longo prazo, apenas resultados imediatos.
No entanto, com o passar de todos esses anos aprendemos que a tecnologia, em si, nunca é a causa primária ou básica da excelência ou do declínio de uma sociedade. É a tecnologia, criada pelo próprio ser humano, que transforma continuamente a humanidade, a ponto de provocar rupturas e favorecer a sucessão de civilização, completamente diferentes em seus valores, hábitos, costumes. Mas será que essa transformação radical da humanidade é positiva? Será que essa mudança nos nossos hábitos e costumes será para melhor ou colocará a humanidade em um caminho perigosamente dependente da tecnologia? Será que o ser humano vai evoluir ou continuar emburrecendo?
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Também me pergunto: estamos criando tecnologias à nossa imagem e semelhança ou estamos lentamente nos adaptando às exigências delas? Creio que a segunda opção está mais perto de ser a verdadeira, pois ajustamos nossos ritmos biológicos aos dispositivos, nossa atenção às notificações, nossas relações às métricas e os nossos pensamentos à lógica da eficiência. Como certa vez afirmou o educador canadense Marshall McLuhan, nós moldamos nossas ferramentas, e depois elas nos moldam. O mais interessante é que esta frase foi proferida na década de 1960 em um dos seus vários ensaios visionários sobre tecnologia. E mesmo depois de mais de sessenta anos, nunca essa frase foi tão literal e perigosa.
Neste ponto eu penso que é importante falarmos sobre o estado atual das coisas em termos de tecnologia. Estamos vivendo a Quarta Revolução Industrial e esse momento é histórico porque estamos tendo a oportunidade de presenciar o advento de novidades tecnológicas incríveis. O conceito de Quarta Revolução Industrial foi cunhado pelo cientista e escritor alemão Klaus Schwab, que, em suas publicações, comenta que há três fatores que tornam esse momento tão histórico, tão singular.
– o primeiro deles tem a ver com a velocidade, pois esta revolução adota uma velocidade exponencial, ao invés da velocidade linear que caracterizou as anteriores. Assim, as novas tecnologias ajudam a gerar tecnologias mais inovadoras e potentes em um ciclo virtuoso. As inteligências artificiais são um exemplo disso;
– o segundo fator diz respeito à amplitude e profundidade da quarta revolução industrial, pois ela é fruto da revolução digital e combina múltiplas tecnologias que estão liderando uma mudança sem precedentes de paradigmas na economia, negócios e sociedade e nas pessoas. Não é apenas a mudança do “o que” e “como” as coisas são feitas, mas também do “quem” somos;
– o terceiro fator tem a ver com o impacto sistêmico do que está acontecendo, pois a atual revolução envolve a transformação de sistemas inteiros, entre (e dentro) de países, organizações, indústrias e sociedades como um todo. Sua abrangência não se limita a um país, mercado ou profissão. Afeta a todos.
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Esse processo já está acontecendo. O trem da Quarta Revolução Industrial já deixou a estação faz tempo. Agora, não falamos mais apenas de máquinas que substituem músculos, mas de sistemas que simulam e em alguns casos superam as funções cognitivas humanas. Inteligência artificial que escreve, compõe, diagnostica, recomenda, decide. Em nome da eficiência, terceirizamos tarefas; em nome da conveniência, terceirizamos escolhas; em nome da otimização, começamos a terceirizar o próprio pensamento. É nesta eficiência sem sabedoria que está o risco silencioso do avanço tecnológico. A eficiência tecnológica cresce exponencialmente, enquanto nossa capacidade coletiva de refletir sobre suas consequências cresce de forma lenta e desigual, o que faz com que saibamos cada vez mais como fazer e cada vez menos por que fazer.
Perceba que o que está em jogo não é apenas o futuro do trabalho, da economia ou da inovação. O que está em jogo é tudo aquilo que não pode ser facilmente quantificado, mas sem o qual nenhuma sociedade floresce. Novamente, digo que não quero que o ouvinte do Coachitório Online pense que este episódio é uma espécie de alerta apocalíptico, e sim um convite à lucidez. A tecnologia que nos olha de volta não é inimiga; é apenas um reflexo de nossas escolhas, prioridades e omissões. Se o reflexo nos inquieta, talvez não seja a tecnologia que precise mudar. Talvez sejamos nós.
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Fala, galera do Coachitório Online.
Décadas atrás, o cientista e escritor americano Carl Sagan alertava que vivemos em uma sociedade profundamente dependente da ciência e da tecnologia, mas perigosamente ignorante sobre ambas. Ainda nessa linha e evocando a um pensamento que mais parece ter saído dos livros de Harry Potter, não posso deixar de dizer que há uma lição importante para os eternos aprendizes que sempre seremos: nunca conjure poderes que não consegue controlar. Ou seja, se não conseguirmos entender profundamente a tecnologia e dominá-la, é melhor sabermos em que momento devemos dar uma pausa nos avanços. Para mim, o avanço tecnológico somente faz sentido quando resolve problemas em escala social e global.
Mas eu quero ouvir você! Ficarei feliz com seus comentários. Se preferir, pode escrever para fabiano@ponteaofuturo.com.br Te faço também um pedido: escolha um episódio do Coachitório Online para compartilhar com seus amigos, nas suas redes sociais e lembre-se de apertar o botão para seguir o nosso podcast. Vamos aumentar o número de pessoas que está nos acompanhando nessa jornada.
Encontro você no próximo episódio! Um abraço!