Transcrição do episódio "254 – O Fim Justifica os Meios?"
Olá, pessoal! Meu nome é Fabiano Goldacker. Sou Coach Executivo da Ponte ao Futuro.
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O fim justifica os meios?
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A frase de abertura, do título, foi uma pergunta. Mas agora eu afirmo: o fim justifica os meios! Essa é uma das mais das conhecidas frases da nossa história. Ela é incorretamente atribuída a Nicolau Maquiavel, diplomata e escritor italiano que viveu nos séculos 15 e 16 e que se tornou célebre por seus poemas, peças de teatro e, principalmente, por seu livro “O Príncipe”, obra que trata sobre organização e gestão política. Eu digo que ela é incorretamente atribuída a Maquiavel porque até hoje não foram encontradas evidências desta frase em qualquer uma de suas obras. O problema é que até hoje muitas pessoas torcem o nariz quando ouvem esta famosa frase do escritor italiano, pois por muito tempo ela ficou associada de forma pejorativa aos comportamentos e atitudes das pessoas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Inclusive, o termo “maquiavélico” é usado para rotular as pessoas que demonstram traços desse comportamento.
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Só que eu sempre tive uma pulga atrás da orelha com relação ao preconceito atribuído a essa frase. Primeiro, por saber que Nicolau Maquiavel provavelmente nunca falou isso. Segundo, por imaginar que esse não é o sentido que ele teria dado para sua famosa frase. Terceiro, porque parece que essa frase incorretamente se sobrepõe à importância que a obra de Maquiavel teve para sua época e a influência que exerce até hoje. E por último, mas não menos importante, penso que a fama pejorativa dessa frase é injusta por um simples motivo: cada vez mais falamos em ter sonhos e objetivos. Cada vez mais falamos em perseguir nossas metas. Falamos muito em propósito e de fazer com que as coisas que fazemos em nossa vida tenham sentido.
Ou seja, se fizermos uma interpretação um pouco mais aprofundada da frase de Maquiavel, vamos descobrir que o fim (que é o nosso propósito, nossos sonhos, objetivos e metas) servem como referência para as ações (que são os meios) que vamos usar para alcançar esses objetivos. Mesmo na Administração essa premissa é utilizada, porque é por meio do Planejamento que detalhamos as ações, prazos e responsáveis para que os objetivos da empresa sejam alcançados. Veja, então, que tanto na esfera pessoal quanto profissional a nossa vida é permeada por vários exemplos de que o que queremos para a nossa vida é o que vai determinar as ações de hoje.
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Claro que essa análise é muito simplista. Tem muito mais coisa para detalhar na frase atribuída a Maquiavel. A frase é como uma cebola, que tem muitas camadas que precisam ser retiradas uma a uma até chegar ao cerne do que ela realmente quer dizer. E, no episódio de hoje do Coachitório Online, eu vou tentar descascar um pouquinho mais essa cebola para que a gente pense melhor se o tal do maquiavelismo, ou de usar todos os meios para chegarmos aos nossos objetivos, é realmente algo tão nocivo.
Bom, a gente já viu que a frase “o fim justifica os meios” pode ser interpretada de forma negativa, como se qualquer meio – inclusive antiético – fosse aceitável para alcançar um objetivo. No entanto, quando interpretada com maturidade, ética e consciência, ela pode ser utilizada de forma positiva, responsável e construtiva no alcance dos objetivos. Em uma leitura positiva, essa frase pode significar que objetivos legítimos exigem esforço, disciplina, escolhas difíceis e renúncias, e não necessariamente caminhos fáceis ou confortáveis. Ou seja, alcançar algo relevante quase sempre demanda sair da zona de conforto, enfrentar obstáculos e sustentar decisões impopulares, mas não imorais.
E aí vem outra pergunta, tão importante quanto à análise da frase atribuída a Maquiavel: o fim está claro? Ou seja, os objetivos estão claros? Pode parecer trivial demais fazer essa pergunta, mas eu te convido a refletir sobre isso. Teus objetivos pessoais e profissionais estão claros? As coisas que você deseja realizar ou conquistar estão claras para você? Na maioria das vezes, não está. Por incrível que pareça, a maioria das pessoas responde esta pergunta afirmando que seu objetivo é passar o mês, pagar as contas. Ou seja, sobrevivência.
É lógico que a sobrevivência é algo nobre, mas penso que se focarmos somente na sobrevivência, sobreviver é tudo que vamos conseguir. E se for esse o único fim, o único objetivo que temos em mente, iremos utilizar os meios necessários para isso. Assim, iremos trocar de emprego, pulando de galho em galho atrás de um salário melhor. Não iremos investir nosso tempo e dinheiro em nós mesmos, na nossa evolução, e assim por diante.
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Veja que, quando o objetivo for simplório demais, os meios disponíveis e que vamos utilizar também são. Por isso que eu acredito muito no potencial de termos objetivos pessoais e profissionais de médio e longo prazos, pois coisas grandiosas irão fazer com que a gente tenha que utilizar meios ou ferramentas igualmente grandiosos para conquistar o que queremos. Mais uma vez, lembro que estamos falando de objetivos legais, éticos, coisas ligadas ao bem. Quando o “fim” está ancorado em valores éticos, bem comum, desenvolvimento humano ou influência positiva, ele passa a orientar os meios de forma saudável.
Um propósito claro ajuda a diferenciar meios difíceis de meios injustos. Por exemplo, cobrar resultados, estabelecer metas desafiadoras ou tomar decisões impopulares pode ser desconfortável, mas é legítimo quando visa o crescimento coletivo. Isso sugere outra questão importante: alguns objetivos levam tempo para serem conquistados quando utilizamos meios, digamos assim, lícitos. Algumas coisas levam tempo quando seguimos pelo caminho correto. E daí surge a tentação de abandonarmos a caminhada ou de continuar a busca pelo que desejamos por meios mais fáceis ou não tão lícitos assim.
Cuidado, pois isso é uma armadilha. Algumas pessoas vão nos dizer que o esforço não vale a pena, que estamos sendo trouxas por querermos fazer as coisas do jeito certo, que aquilo que desejamos não importa ou que pode ser conquistado por meio do jeitinho brasileiro. Enfim, são muitas as tentações para deixarmos de usar os meios corretos. Então é importante ter maturidade para reconhecer que nem todo caminho será ideal, rápido ou agradável, porque às vezes os meios justos envolvem persistência diante do fracasso; disciplina e autocontrole; esforço contínuo e consistência; aprendizado com erros; renúncia a resultados imediatos.
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Veja que usar os meios corretos não viola princípios. Pelo contrário, fortalecem o caráter e preparam a pessoa para sustentar o resultado alcançado. Significa que assim não será difícil assumir total responsabilidade pelas consequências dos meios adotados, pois o objetivo não é “chegar lá a qualquer custo”, mas chegar lá do jeito certo, mesmo que mais difícil. Isso me faz lembrar daquela antiga charada filosófica, que nos faz questionar: quero, devo, posso? Entre outras coisas, essa reflexão filosófica nos ensina que nem sempre podemos ou devemos aquilo que queremos. Trocando em miúdos, será que aquilo que queremos pode ser obtido por nós? É direito, ou melhor, é nosso direito?
Novamente, a maturidade está em compreender que há coisas certas e há o jeito certo de fazer as coisas. Há as coisas que queremos, mas há aquelas que, por algum motivo, não podemos ou devemos. Essa reflexão nos ajuda a ter uma imagem mais clara dos nossos objetivos e uma segurança maior para a escolha dos meios. No longo prazo, meios éticos fortalecem a credibilidade, a confiança e a sustentabilidade dos resultados. Assim, o “fim” não apenas justifica os meios, mas exige meios que sejam coerentes com ele.
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Quando o objetivo é claro e legítimo, ele educa o comportamento ao longo do caminho. A visão do objetivo alcançado ajuda a pessoa a perseverar, manter foco e agir com responsabilidade, mesmo diante de pressões, tentações ou atalhos. Há, obviamente, que se considerar a nobreza dos nossos objetivos e das nossas ações. Há que se lembrar que às vezes a jornada, o aprendizado (os meios) são tão ou mais importantes que o destino (o fim). Há que se lembrar sempre que devemos respeitar as pessoas e as regras com que o jogo é jogado. Há que se lembrar de ajudar as pessoas que encontramos pelo caminho. Caso contrário, por mais nobre que seja seu objetivo e por mais competentes que tenha sido em sua realização, se nos dispusermos a passar por cima de tudo e de todos para alcançar nossos objetivos, no final das contas, acabaremos merecendo o rótulo de maquiavélicos.
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Fala, galera do Coachitório Online.
No começo do episódio eu comentei que iria meio que descascar as camadas da frase atribuída a Maquiavel para que pudéssemos assumir que, às vezes, os fins justificam os meios. Creio que o episódio trouxe avanços, mas está longe de chegar ao cerne da questão, e o motivo é muito simples: penso que o Maquiavelismo é muito interpretativo, ou seja, o ato de usar todos os meios para chegar aos nossos fins terá limites diferentes para cada pessoa.
Então eu quero ouvir você. Você faria de tudo para alcançar seus objetivos? Você conhece seus limites éticos, racionais ou de bom senso, que às vezes podem evitar que faça algo que se arrependa para ter o que deseja? Ficarei feliz com seus comentários. Se preferir, pode escrever para fabiano@ponteaofuturo.com.br Te faço também um pedido: escolha um episódio do Coachitório Online para compartilhar com seus amigos, nas suas redes sociais e lembre-se de apertar o botão para seguir o nosso podcast. Vamos aumentar o número de pessoas que está nos acompanhando nessa jornada.
Encontro você no próximo episódio! Um abraço!