Transcrição do episódio "257 – Precisamos de Terapia"
Olá, pessoal! Meu nome é Fabiano Goldacker. Sou Coach Executivo da Ponte ao Futuro.
—
Precisamos de terapia
—
Lá nos idos de 2022, em meio à pandemia da Covid-19, a quinta temporada do Coachitório Online trouxe um episódio que, modéstia à parte, talvez tenha sido visionário e um tanto premonitório. O episódio #152 daquela temporada tinha o seguinte título: A empresa no divã! Nesse episódio eu falei da importância de cuidarmos da saúde mental e dos impactos que o trabalho pode gerar no nosso equilíbrio emocional e no nosso psicológico. Ou melhor, deixa eu falar essa frase de um jeito um pouco diferente: não é o trabalho que pode gerar impacto na nossa saúde emocional, e sim o local em que trabalhamos e as pessoas com as quais nos relacionamos no ambiente de trabalho. Até porque eu acredito que o trabalho em si não é o vilão da história.
E adivinha só sobre o que nós vamos falar nesse episódio? Pois é! Quatro anos se passaram e aqui estou eu para falar novamente sobre a importância do cuidado com a saúde mental no trabalho e na vida. No episódio de hoje do Coachitório Online, quero falar com você sobre esse tema, que tem se tornado cada vez mais central e, ainda assim, muitas vezes negligenciado não apenas no ambiente de trabalho, mas em nossa vida como um todo. Vamos falar, ou melhor, confessar que precisamos de terapia!
—
Para começo de conversa, penso que é preciso ressaltar a importância da terapia. Temos que reconhecer que, às vezes, precisamos de terapia para lidar com desafios, entender nossos limites e aprender a cuidar de nós mesmos, afinal de contas, a saúde mental é muito mais que a ausência de doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde mental se refere a um estado de bem-estar em que a pessoa é capaz de usar suas capacidades cognitivas e emocionais, lidar com as tensões normais da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir positivamente com as pessoas que estão ao nosso redor.
No mundo de hoje, a pressão por desempenho, produtividade e resultados tem aumentado significativamente. Em muitas organizações, especialmente aquelas que disputam mercado em ambientes altamente competitivos, a cobrança por resultados pode ser intensa, contribuindo para um cenário que acarreta sofrimento e até adoecimento psicológico. E mesmo quando as organizações se esforçam para promover ambientes mais saudáveis, ainda há um grande número de pessoas que enfrentam dificuldades emocionais profundas, que são frutos não apenas do trabalho, mas de situações pessoais, relacionamentos, perdas, traumas ou crises existenciais. É por isso que falar de saúde mental exige uma abordagem mais ampla, humana e baseada em evidências científicas.
—
O conceito de saúde mental do trabalhador vai além da simples ausência de sofrimento no trabalho. Inclui a presença de condições que favoreçam inclusão, suporte organizacional e promoção de bem-estar emocional. Isso ocorre porque estudos mostram que ambientes de trabalho com alta exigência psicológica, competição acirrada, falta de suporte, controle e organização inadequada podem comprometer seriamente a saúde mental dos trabalhadores. Quando um ambiente de trabalho é desorganizado e estressante, problemas como ansiedade, estresse crônico, burnout, depressão e outros transtornos psicológicos podem surgir com mais frequência. Essa realidade tem se manifestado no mundo todo, com aumento de afastamentos por questões psicológicas e maior percepção de sofrimento emocional entre empregados.
E aqui eu quero resgatar algo que eu comentei lá no comecinho do episódio: adoecer no trabalho não depende apenas do trabalho em si. Esse adoecimento é influenciado também por fatores pessoais, ou seja, nossas histórias de vida, nossos relacionamentos, nossas experiências traumáticas ou estressantes fora do ambiente laboral. Estudos da Psicologia mostram que o corpo e a mente estão intrinsecamente conectados, e que fatores psicológicos podem desencadear respostas físicas e graves consequências de saúde física. Isso faz com que muitas vezes os problemas pessoais acabam acompanhando a pessoa para dentro do ambiente de trabalho e, às vezes, a realidade do trabalho serve como gatilho ou amplifica problemas que já estavam presentes. Daí a pessoa surta no ambiente de trabalho, mas não necessariamente por causa do trabalho ou da empresa em si.
—
Eu sei que esse é um ponto delicado. Muitos profissionais da Psicologia entendem que o trabalho é o principal vetor, o principal causador do adoecimento psicológico. Há aqueles que pensam diferente, como eu. Lógico que eu não tenho a competência técnica na área da Psicologia para afirmar isso, mas tenho posso afirmar que boa parte dos casos de adoecimento psicológico que vejo dentro das organizações têm uma relação direta com a vida pessoal do colaborador, e não pelo trabalho, empresa ou líder em si. Dados mostram que o adoecimento psicológico é influenciado não apenas por fatores organizacionais. Isso significa que uma pessoa com um ambiente de trabalho equilibrado ainda pode sofrer emocionalmente devido a problemas pessoais como o luto, conflitos familiares, dificuldades financeiras, distância da família, doenças, etc.
Da mesma forma, alguém em um ambiente de trabalho desgastante pode ter a resiliência emocional comprometida por uma vida pessoal fragilizada. Esses dois mundos – profissional e pessoal – são interdependentes e influenciam profundamente nossa saúde mental e bem-estar. Inclusive, vale dizer que muitas empresas já têm tomado cuidados severos neste sentido. Treinamentos para lideranças, conscientização das pessoas, criação de canais de conversa e até para denúncia de assédios morais são algumas das muitas ações que as empresas têm feito para tornar o ambiente de trabalho não só como um local produtivo, mas, principalmente, como um local de bem-estar.
Aliás, vale dizer que essas empresas já entenderam há algum tempo que a função do ser humano na organização é cumprir o seu papel profissional, ser eficiente e produtivo em prol dos resultados desejados. Por outro lado, entenderam que o papel da empresa é o desenvolvimento do colaborador, a criação de um ambiente em que ele pode realizar seus sonhos, objetivos e propósitos e, principalmente, o de cuidar das pessoas.
—
Nesse contexto, a terapia aparece como uma ferramenta valiosa não só para lidar com as exigências do trabalho, mas também para enfrentar questões pessoais que se manifestam no campo emocional e psicológico. Só que muita gente ainda tem um preconceito em relação à terapia. Ainda existe a crença de que é um sinal de fraqueza, ou que “apenas pessoas com doenças graves precisam de psicólogo”. Essa percepção está longe de ser verdadeira. De acordo com algumas definições acadêmicas que eu pesquisei, a psicoterapia é uma abordagem profissional que ajuda a tratar questões psicológicas como ansiedade, depressão, dificuldades de relacionamento ou padrões de pensamento que impedem o bem-estar.
Diferente das conversas casuais com amigos, a terapia é conduzida por profissionais treinados, que utilizam métodos baseados em evidência científica para nos ajudar a entender padrões de pensamento e comportamento; identificar gatilhos emocionais; aprender formas mais saudáveis de reagir ao estresse; desenvolver resiliência; trabalhar traumas e conflitos internos; construir significado e propósito, entre outros benefícios. Além disso, a relação com um psicólogo cria um ambiente de escuta sem julgamentos, algo que muitos de nós não encontram com facilidade no dia a dia – nem no trabalho, nem mesmo em nossos círculos pessoais.
A terapia é especialmente eficaz porque não se limita a “falar sobre sentimentos”, mas sugere estratégias para lidar com a vida de forma mais saudável. E o melhor de tudo é que a terapia pode ser benéfica não só como tratamento, mas também como prevenção contra problemas emocionais futuros. Aliás, eu devo dizer que, para mim, essa foi uma grande descoberta da terapia. Parece lógico, mas para mim não era. Significa que a gente pode usar a terapia de forma preventiva assim como fazemos atividades físicas, meditação, ioga, assim como fazer exames médicos regularmente ou ir ao dentista frequentemente. A boa notícia é que não precisamos esperar para ficarmos emocionalmente doentes. Podemos cuidar disso antes, desde já.
—
Embora a terapia seja um recurso importante para cada um de nós, não podemos esquecer que a promoção da saúde mental também é uma responsabilidade coletiva. Organizações, lideranças e gestores precisam reconhecer que ambientes de trabalho saudáveis são aqueles que oferecem apoio psicológico efetivo ou auxiliam e viabilizam esse apoio psicológico. São aqueles que, principalmente, se esforçam para reduzir os fatores psicossociais de risco e que estimulam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Essa transformação organizacional não acontece apenas com políticas superficiais, mas como um compromisso estratégico ligado à gestão de pessoas. E a atuação de psicólogos nas organizações, tanto para prevenção quanto para intervenção, tem um papel relevante nesse processo. Além disso, acima de tudo, o cuidado com a saúde mental é uma tarefa compartilhada que envolve a pessoa, sua rede social e seu ambiente profissional.
Cuidar da saúde mental com a ajuda de um psicólogo é um ato de coragem. Não é um sinal de fragilidade, mas de responsabilidade consigo mesmo. É reconhecer que nossas experiências de vida pessoais e profissionais moldam nossa mente, e que buscar ajuda para entender e transformar isso é um gesto de amor-próprio.
—
Fala, galera do Coachitório Online.
A terapia não resolve todos os problemas da vida, mas oferece um caminho para que possamos lidar com a vida de forma mais plena, consciente e resiliente. Até porque, no final das contas, o melhor investimento que podemos fazer é na nossa própria mente.
Por isso eu quero ouvir você: quando foi a última vez que você cuidou da sua saúde mental com a mesma diligência que cuida do seu trabalho? Ficarei feliz com seus comentários. Se preferir, pode escrever para fabiano@ponteaofuturo.com.br Te faço também um pedido: escolha um episódio do Coachitório Online para compartilhar com seus amigos, nas suas redes sociais e lembre-se de apertar o botão para seguir o nosso podcast. Vamos aumentar o número de pessoas que está nos acompanhando nessa jornada.
Encontro você no próximo episódio! Um abraço!